sábado, 30 de abril de 2016

Cantinhos da creche - Plano de aula

Em cenários montados na creche, os pequenos se sentem em casa e aprendem a conviver com os maiores da pré-escola... Veja no plano de aula abaixo tudo que você precisa aprender para organizar cada cantinho na sua creche, mesmo com poucos recursos.


■ OBJETIVOS
Promover a autonomia e estimular o convívio e a interação das várias faixas etárias.
■ ANOS Creche e pré-escola.
■ TEMPO ESTIMADO Livre.
■ MATERIAL NECESSÁRIO
Tecidos de várias cores e tramas (para fazer tendas e delimitar os espaços); garrafas PET de 600 mililitros com diferentes quantidades de água – para produzir sons variados – e lantejoulas gigantes, penduradas acima da cabeça das crianças, mas ao alcance das mãos; móbiles coloridos presos por elásticos roliços para serem puxados; cortinas de fitas coloridas de cetim e objetos sonoros (canto dos sons e das cores); tapete, almofadas, poltroninhas e estantes baixas com bastante variedade de livros que tenham muitas figuras (canto da leitura); um espelho grande ou vários pequenos, colados na parede (canto do espelho); mobiliário infantil de cozinha, sala, quarto e lavanderia (cantos da casinha); arara com fantasias, sapatos, bijuterias,  chapéus, adereços de vários tipos e um espelho (canto da fantasia); caixas, tubos de papelão, papéis, latas, garrafas PET, potes, cubos, bancos e outros objetos que possam ser empilhados (canto de montar); pincéis grandes e largos, tinta, massinha, giz gigante, argila, folhas grandes de papel e cartolinas inteiras (canto das artes).

■ ORGANIZAÇÃO DO ESPAÇO
Delimite os cenários com divisórias baixas ou materiais que facilitem o trânsito entre elas (persianas de madeira, compensados que tenham um buraco pelos quais as crianças possam passar, cortinas de fitas coloridas ou tecidos). O ideal é ter no máximo 12 crianças por ambiente. 

■ DESENVOLVIMENTO
1ª ETAPA
Os funcionários devem estar preparados para esse esquema de trabalho. Por isso, é importante que o coordenador pedagógico, o diretor ou um professor marquem uma reunião para explicar à equipe que o
objetivo desse tipo de organização é estimular a circulação e o exercício da autonomia e do poder de escolha.

2ª ETAPA
Deixe que todos explorem os espaços livremente, durante o tempo que durar o interesse pela brincadeira. Porém, em alguns momentos, é possível eleger algumas intenções pedagógicas para serem trabalhadas em determinados ambientes. Confira aqui algumas sugestões. 

■ Canto das cores e sons – Conhecer texturas, formas e sons: estimule-os a tocar os instrumentos, a tirar sons das garrafas e a reconhecer as cores, chamando a atenção para a variedade de tons que existe.

■ Canto da cozinha – Aguçar o paladar: leve alimentos prontos, como pão, gelatina e bolo, para serem degustados por quem visitar o local. Se o espaço permitir, prepare com a turma lanches ou sobremesas fáceis de fazer, como um sanduíche ou uma salada de frutas. 

■ Canto da leitura – Interagir com outras faixas etárias, durante a atividade, mostrem as figuras que aparecem nos livros. 

■ Canto dos espelhos – Reconhecer-se e conhecer o próprio corpo: leve a criança para se observar, diga o nome dela e identifique as partes do corpo e suas características particulares (cor dos olhos e cabelos, por exemplo).

■ Canto de montar – Adquirir noções de tamanho e de cor: mostre como empilhar caixas e blocos de diferentes cores e dimensões ou como colocar um dentro do outro. 

■ Canto das artes – Explorar as tonalidades: disponha uma tinta por vez para que os menores percebam
as possibilidades de trabalhar com uma só cor, pura ou mais aguada.

3ª ETAPA
Depois da organização dos móveis e dos acessórios, é hora da diversão. Divida a turma em grupos para que os ambientes sejam bem explorados. Os bebês participam observando, sempre no colo de um adulto.
Prepare-se para manter todos em atividade e deixar que a brincadeira aconteça, preocupando-se em mediar e incentivar a interação. Não há a necessidade de falar muito ou explicar o propósito para a classe. Quando surgirem os conflitos, interfira e estimule o convívio pacífico.

■ AVALIAÇÃO

Depois de montar um cenário, pergunte a si mesmo se ele é convidativo, atraente e desafiador. Durante a atividade, observe o grau de autonomia, a capacidade de interação e a resposta de cada um aos estímulos oferecidos, percebendo os vários níveis de desenvolvimento. A partir disso, planeje outras atividades e monte novos subgrupos conforme as necessidades. 

https://www.pragentemiuda.org

quinta-feira, 28 de abril de 2016

Atividade - Exploração de texturas e melecas

Plano de Aula


Objetivo(s) 
- Explorar texturas de tintas e melecas.
- Utilizar diferentes instrumentos para pintura.
Ano(s) 
Creche
Tempo estimado 
Durante todo o ano, ao menos uma vez por semana.
Material necessário 
Bacias grandes, utensílios de cozinha como coadores, espátulas, colheres, escumadeiras, pratinhos e vasilhas de diferentes tamanhos. Pincéis, brochinhas, rolinhos de pintor, esponjas e suportes grandes, como papéis, tecidos lisos, plásticos e caixas de papelão. Farinha de trigo, gelatina em pó com cores fortes, amido de milho, corante comestível (anilina) e natural, feitos com frutas e geleias, para preparar tintas e massas (para cada xícara de água morna, acrescente uma de amido de milho e um pacote de gelatina. É possível variar a densidade da meleca acrescentando mais água ou mais farinha. Para mudar as cores, acrescente o corante.
Desenvolvimento 
1ª etapa 
As experimentações com as tintas podem ocorrer na sala, em uma oficina de artes ou em espaços externos. Monte o local deixando à mão tudo o que será necessário para o andamento da proposta, pois assim você pode ficar mais atento às crianças e suas explorações. Forre o piso (se estiver num espaço de uso coletivo ou sala) e ofereça papéis no chão, na mesinha ou na parede para que deixem marcas. Coloque o material ao alcance de todos e deixe as crianças de fraldas ou roupas que possam sujar. Planeje também como será a arrumação ao fim da atividade: onde serão colocadas as produções? Quem ajudará na limpeza e no atendimento às crianças? Quem documentará a atividade? Planeje como mostrar os primeiros resultados da atividade, incluindo as fotos, às famílias. Assim, todos poderão participar, mesmo que indiretamente.
2ª etapa 
Apresente os materiais aos bebês. É importante que eles diferenciem os momentos de trabalho daqueles de alimentação. Por isso, não os incentive a comer durante as atividades, mesmo que os materiais sejam comestíveis. Mostre o que poderão fazer com as tintas. Inicie utilizando apenas água e depois amplie para misturas e melecas, como massas de amido ou farinha com corantes ou gelatinas. Ao acrescentar uma cor forte, pergunte: "Estão vendo como a cor mudou?" Para os mais crescidos, é possível introduzir terra, areia, folhas e sementes. Se fizer uma tinta de gelatina, por exemplo, deixe que cheirem, toquem e brinquem. É importante que eles se familiarizem com os materiais de apoio antes de a atividade começar - uma bacia pode ser tão interessante quanto seu conteúdo. O foco da atividade, porém, deve ser exploração de texturas.
3ª etapa 
Convide o grupo a explorar as propriedades e possibilidades dos materiais. É possível organizar, por exemplo, uma atividade para explorar texturas de determinado material ou então uma para que os pequenos utilizem mais um tipo de instrumento, como o pincel, a brochinha e o rolinho de pintor. Nesse momento, diga: "Veja como com o rolinho você pinta uma área maior. Com o pincel, só dá para fazer um risco". Vale testar também as diferenças entre pintar com as mãos, que dá mais controle, ou com os pés, com pincéis e rolinhos, que tendem a ser mais difíceis de controlar.
Avaliação 
Observe atentamente durante todo o processo. Isso dará indícios de como propor as próximas atividades. Em alguns casos, vale fazer pautas de observação individual, pois cada criança pode apresentar formas muito distintas de aproximação dos materiais: algumas se lambuzam logo no primeiro dia e aos poucos vão se concentrando em explorações mais definidas. Outras demoram mais tempo para se soltar e há ainda as que insistem em pesquisas específicas de cores, misturas ou ocupação dos suportes etc. No dia seguinte ao trabalho, retome com o processo documentado, conversando com todos para ver se lembram quais os materiais e utensílios foram usados em cada atividade.
Flexibilização 
Para trabalhar com bebês com deficiência física nos membros superiores, envolva os rolinhos e os pincéis em espuma. Isso vai ajudar os pequenos a ter mais firmeza na hora de fazer as primeiras pinturas. Você pode fixar papeis em pranchetas inclinadas e colocar em frente ao bebê ou fazer com que a criança crie suas próprias estratégias para pintar nos papeis fixados no chão. Estimule que ela pinte com os pés junto dos colegas e deixe as tintas em lugares acessíveis e próximos da criança com deficiência. Os outros bebês também ajudam a criança a segurar alguns objetos ou alcançar os potes de tinta.
Deficiências 
Física
http://rede.novaescolaclube.org.br/

quarta-feira, 27 de abril de 2016

Os desafios das creches

Falta de terrenos e alto custo de manutenção dificulta a missão dos municípios de ampliar a oferta de vagas para crianças de 0 a 3 anos

Cristiane Marangon
Há 22 anos as crianças brasileiras têm direito a creche e pré-escola. A Constituição Federal de 1988 (artigo 208, item IV) já dizia que é um dever do Estado a garantia de vagas na educação infantil para as crianças de até 5 anos. A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB nº 9.394), em 1996, no artigo 4º, que trata do direito à educação e do dever de educar, reafirma a relevância desse direito, cuja importância já era conhecida antes de sua consagração em lei e na Constituição Federal.

Na prática, porém, o que se constata é o atraso na consolidação e na implementação desse direito como política pública. As dificuldades são inúmeras. Faltam vagas para os pequenos, terrenos para a construção de escolas e recursos para atendimentos de qualidade e profissionais capacitados. No ano 2000, o governo federal, com o Plano Nacional de Educação, lançou o desafio de ofertar creche para 50% da população de até 3 anos e pré-escola para 80% da de 4 e 5 anos, até 2011. Os números atuais revelam que a meta estabelecida para a pré-escola foi alcançada, mas a cobertura para os menores beira apenas os 18%.

Para minimizar o problema, foi criado em 2007 o programa Pro Infância, que financia a construção, a reforma e a aquisição de mobiliário e equipamentos para essa etapa da Educação Básica. "Temos 1.722 escolas de educação infantis já financiadas", contabiliza a Secretária de Educação Básica do Ministério da Educação (SEB/MEC), Maria do Pilar Lacerda. Vale destacar que o município beneficiado deve garantir a manutenção do programa, que, em geral, tem custo tão elevado quanto a construção. "Se o valor empregado for de R$ 1 milhão, por exemplo, é necessária a mesma quantia por ano para manter o padrão de qualidade", sinaliza Luiz Araújo, consultor em educação da União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime). Ou seja, a grande responsabilidade sobre a implementação dessa política pública está nas mãos dos municípios. Alguns são vitoriosos na questão, outros não. Enquanto isso, crianças ficam desassistidas, privadas de atendimento escolar adequado para a idade e da companhia de pares da mesma faixa etária.

Financiamento curto

Apontado por especialistas e também por secretários de educação, o financiamento é o grande vilão da não expansão da rede de creches. "Não é possível garantir o acesso de milhões de brasileiros à escolarização sem elevar os gastos públicos em educação", explica Araújo. "O ente federado que pode contribuir para que o país alcance esse patamar seja a União, que fica com 58% de todo o dinheiro arrecadado via cobrança de impostos."

A dificuldade encontrada em Camaragibe (PE), município do Grande Recife, é a falta de financiamento para a construção de creches e ampliação de salas. A cobertura do município no que se refere à creche é de 8,46% e à pré-escola, 19,8%, segundo cruzamento de dados de 2007, fornecidos pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep). "A ampliação é urgente, pois precisamos extinguir a demanda existente", diz a diretora de ensino Sinmônia Ribeiro de Arruda. Mesmo com essas dificuldades, a secretaria de educação tem realizado diversas ações, como a construção de uma creche, que atenderá, aproximadamente, 120 crianças em tempo integral.
A prefeitura também está em fase de escrituração de um terreno e da compra de outro em um dos bairros mais populosos da cidade, onde serão construídas mais duas unidades.

Em São José do Vale do Rio Preto (RJ), a 110 km da capital fluminense, a situação não difere muito. Atualmente, o município atende 46 crianças em idade de creche e 519 de pré-escola, o que corresponde a 15,22% do número de matrículas da rede de ensino. "Atendemos toda a demanda de pré-escola, mas para a creche ainda estamos nos estruturando, pois precisamos de verba para ampliar espaços físicos em algumas unidades, construir escolas para atendimento e contratar mão de obra qualificada", conta o secretário de Educação local, Adilson Gonçalves Priori.

Perguntas sem respostas

Nem todos os municípios conseguem justificar seus baixos índices e nem dizer, ainda que modestamente, quais ações estão sendo planejadas para reverter o quadro. A cidade de São Paulo, que possui a segunda maior arrecadação do Brasil, perdendo apenas para o Estado de São Paulo, tem apenas 18% de cobertura em creche e 35% em pré-escola. Segundo a assessoria da secretaria local, a demanda é decrescente de 2008 para cá e a meta é atender todas as crianças cadastradas até 2012. Mas a falta de vagas em São Paulo não é responsabilidade única e exclusiva de uma gestão. "Há um esforço de atendimento nos últimos cinco anos, mas isso ainda é insuficiente para atender à demanda, que representa 78 mil vagas para creche e 45 mil para pré-escola", conta Samantha Neves, do Grupo de Trabalho Educação, do Movimento Nosso São Paulo.

Ainda se agrega à questão o fato de 70% das matrículas serem de escolas conveniadas, o que é um problema por dois motivos. Primeiro porque essas escolas têm recebido o equivalente à metade da verba que recebem as creches diretas. "Diante da situação, elas têm de suprir com outras fontes e, quando não conseguem, não garantem atendimento com as mesmas condições", explica Samantha. O outro ponto de atenção é o texto da Conferência Nacional de Educação (Conae), que caso aprovado pelo Plano Nacional de Educação irá congelar os convênios até 2014 e extingui-los até 2018.
Para demonstrar onde o dinheiro da pasta da secretaria municipal de educação paulistana está sendo gasto, o Movimento Nosso São Paulo fez uma relação dos custos do programa Leve Leite com a construção e manutenção de novas unidades de creche na cidade. O programa foi criado para combater a desnutrição da população atendida pela rede municipal de ensino e diminuir o índice de evasão escolar. Ele consiste em distribuir mensalmente latas de leite em pó para crianças e adolescentes com base na frequência escolar. Com o que se gasta com esse trabalho, valor que gira em torno R$ 130 milhões, financiados pela secretaria, seria possível construir 250 creches e atender 30 mil crianças por cinco anos.

Exemplos para todos

Na capital tocantinense o número é bastante animador. A cobertura é de 37% para creches e 87% para pré-escola. Há pouco tempo, em 2004, o número de creches era inferior a 4%. "Criamos uma diretoria para educação infantil para adquirir um olhar mais focado", explica o secretário de Educação Danilo de Melo Souza."Também construímos novas escolas porque não tínhamos prédios adequados." Havia apenas cinco escolas.

Esforço concentrado

Foi feita uma análise do custo em uma unidade com poucas matrículas e a conclusão foi que davam prejuízo. "Prefiro colocar 300 crianças em um único prédio a dividi-las em três diferentes", justifica Souza. "Se tenho três escolas, preciso de três diretores, três lactaristas, três vezes o equipamento necessário, as contas...". O secretário faz uma ressalva: "com os professores, o custo é o mesmo, pois não dá para sobrecarregá-los e nem diminuir os salários". Além disso, cada escola passou a administrar os próprios recursos. "Quando a gente dá autonomia de administração, o controle do dinheiro é maior", diz Souza. Atualmente, a rede possui 19 escolas. Uma está sendo ampliada, outra construída e há uma terceira em licitação. Até 2012, estão previstas mais 13 unidades. Todas as transformações foram feitas em discussão com a sociedade. Exemplo disso é que uma comunidade de um bairro de elite, durante um processo de orçamento participativo, solicitou a construção de uma Cemei para atender os filhos das empregas domésticas. "Agora, os moradores querem colocar seus filhos lá", conta. "Esse é um forte indício de que as escolas que construímos são adequadas para atender crianças de qualquer classe social."

Em Florianópolis, capital catarinense, a situação também é animadora. As projeções utilizadas com base no censo de 2000 do IBGE indicam que a cobertura é de 38% para as crianças em idade de creche e 70% para a de pré-escola. Mesmo assim, é necessário expandir a rede, mas o município enfrenta dois entraves: limitação territorial e falta de financiamento. "É difícil encontrar terrenos de 3 mil m², principalmente porque temos muitos mangues, morros e áreas de preservação permanente", explica o secretário de Educação Rodolfo Joaquim Pinto da Luz. "Quando encontramos, são caros. Para atender com qualidade, precisamos de mais incentivos, principalmente, do governo federal", diz.

Revista Escola Pública

terça-feira, 26 de abril de 2016

segunda-feira, 25 de abril de 2016

O que a creche pode ensinar?

Entenda quais são as experiências de aprendizagem para crianças até 3 anos e saiba como cada uma delas influencia no desenvolvimento infantil

No Brasil, a ideia de um currículo para a Educação Infantil nem sempre foi aceita. O termo, porém, ganhou força na última década, quando passou a ser de fato compreendido como um conjunto de práticas intencionalmente planejadas e avaliadas - um projeto pedagógico que busca articular experiências e saberes da criança para inseri-la na cultura, capaz de prepará-la para encarar o Ensino Fundamental da melhor maneira possível.

Para Jean Piaget, o sujeito constroi seu próprio conhecimento, processo que se dá a partir da interação com os outros e com o mundo dos objetos e das ideias. Por isso, o currículo da creche deve apontar quais experiências de aprendizagem são fundamentais para o desenvolvimento da criança, levando-se em conta as principais conquistas deste período, como a marcha, a linguagem, a formação do pensamento simbólico e a sociabilidade. É este projeto pedagógico que vai orientar as ações e definir os parâmetros de desenvolvimento dos meninos e menina.
Em 1998, o Ministério da Educação (MEC) publicou o Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil, documento que aponta metas de qualidade para garantir o desenvolvimento das crianças na creche e na pré-escola. Mas a elaboração de propostas curriculares municipais é bem mais recente.

Conheça, abaixo, os sete eixos de aprendizagem da creche organizados por NOVA ESCOLA para oferecer cuidado, segurança, acolhimento e condições para o desenvolvimento subjetivo e intelectual das crianças entre 0 e 3 anos.

1. Exploração dos objetos e brincadeiras

O brincar é o principal modo de expressão da infância e uma das atitudes mais importantes para que a criança se constitua como sujeito da cultura.
Quando brinca, a criança usa seus recursos para explorar o mundo, amplia sua percepção sobre o ambiente e sobre si, organiza o pensamento, além de trabalhar seus afetos e sensibilidades. Entre 0 e 2 anos, os bebês praticam os chamados jogos de exercício - as brincadeiras sensório-motoras designadas por Piaget, como quando os pequenos descobrem novos objetos ou imitam os gestos corporais e vocais de seus parceiros mais experientes, colocando em ação um conjunto de condutas que os ajudam a desenvolver suas potencialidades.
Por isso, desde o berçário, o professor deve observar e registrar as ações das crianças ao longo da brincadeira para propor desafios diferenciados, de acordo com a idade e a situação. O controle do corpo, os movimentos, as expressões e a exploração dos cantinhos - espaços da creche intencionalmente organizados para propor desafios - motivam os pequenos.
A partir dos 2 anos, as brincadeiras tradicionais, como as cirandas, são facilmente aprendidas e o faz de conta propicia a criação por meio de uma negociação de significados e regras compartilhadas. Quando brincam de faz de conta as crianças analisam aspectos da vida cotidiana e conquistam espaços de poder que as auxiliam a confrontar o mundo e os adultos. E é o faz de conta uma das principais marca da entrada da criança no jogo simbólico, no universo da cultura e da sociabilidade.
Orientações para este eixo
BERÇÁRIO Proponha brincadeiras diárias de esconder; encaixar peças; construir pistas; experimentar as propriedades dos objetos: quais rodam e quais não, quais flutuam e quais não, quais são duros e quais são moles; jogar bola; cirandar; imitar gestos motores e vocais dos companheiros.
MINIGRUPO Brincar todos os dias é fundamental. Organize cirandas e brincadeiras de roda; brincadeiras de esconde-esconde; pega-pega; jogos com bola; faz de conta com uso de fantasias, marionetes e reprodução dos fazeres adultos.

2.Linguagem oral e comunicação

A linguagem é um bem cultural e é através dela que o pensamento humano se organiza. Na Educação Infantil é preciso garantir a constituição de sujeitos falantes por meio das brincadeiras, das cantigas de roda, dos jogos e na interação com os outros. No dia a di da creche é preciso trabalhar a expressividade das crianças intencionalmente.
A fala é o principal instrumento de comunicação dos pequenos com os professores e seus colegas. Desenvolver a oralidade, portanto, é uma das habilidades esperadas nos primeiros anos de escolaridade.
Para dominar a oralidade, os pequenos colocam em jogo muitas competências, como informar fatos, descrever, narrar, explicar, transmiti uma informação a outra pessoa, contar acontecimentos passados, manifestar opiniões, concordar e discordar, predizer, prever, levantar hipóteses, manifestar dúvidas, expressar sentimentos e emoções. Mesmo os bebês são capazes de compreender o que se passa ao redor, antes que comecem a falar. As interações sociais são fundamentais para que os gestos e balbucios evoluam para expressões orais concretas, e o professor tem o dever de acompanhar e estimular todo este processo.
Quanto à linguagem escrita, é o adulto quem mostra às crianças o significado dos livros. Antes mesmo da apreensão dessa linguagem, portanto, as crianças devem ter contato com materiais impressos - seja ouvindo histórias, seja manuseando-os. O objetivo é ampliar o repertório das crianças e ajudá-las a organizar melhor o pensamento.
Leia histórias para as crianças, escreva as histórias contadas oralmente pelos pequenos para que eles produzam seus primeiros textos, estimule a comunicação em grupo, valorize as garatujas e ensine a escrita do nome próprio ainda na pré-escola. A creche deve, também, ser uma porta para a descoberta da funcionalidade da escrita, que desperte a curiosidade e estimule o início do que será adiante desenvolvido como comportamento leitor. Segundo o psicólogo Lev Vygotsky (leia mais sobre Pensadores), é preciso fruir a linguagem que se usa para escrever e, portanto, as práticas de leitura são imprescindíveis na vida diária dos bebês.
Orientações para este eixo
BERÇÁRIO e MINIGRUPO O contexto rico de interações estimula a criança a expressar seus desejos, sentimentos e necessidades por meio do gestos, balbucios e das situações coletivas de comunicação. Organize rodas de conversa e atividades de observação e conte histórias. Deixe, também, que as crianças imitem os colegas e aprendam a organizar instruções para as próprias brincadeiras, seguindo receitas e regras.

3. Desafios corporais

Este eixo trata de um ponto importante de desenvolvimento. Embora os bebês se movimentem desde o nascimento, um longo caminho de aprendizagem precisa ser percorrido para que a criança domine seus movimentos, atribua significações a si, aos outros e ao mundo. As ações reflexas são, aos poucos, substituídas pela complexidade do sistema de coordenação motora - o que pode ser amplamente estimulado pelas brincadeiras e na organização dos cantos na creche, que oferecem obstáculos e desafios à movimentação.
Assim como no desenvolvimento da linguagem, o movimento pode também introduzir a criança no mundo simbólico. É um ato cultural, no qua as crianças tanto imitam, quanto criam. Conhecer o corpo inclui trabalhar diferentes áreas, como as ciências e as artes.
Por isso, o professor deve reconhecer os movimentos da criança sem considerá-los "indisciplina", mas registrando os avanços motores. É indispensável, portanto, que a escola ofereça espaços para a criança rolar, sentar, engatinhar, andar, correr, saltar, segurar objetos e arremessá-los, manipulá-los e encaixá-los.
Mantenha a regularidade das propostas que envolvem os desafios corporais e introduza, se possível, atividades esportivas, de dança e circenses ao cotidiano da creche.
Orientações para este eixo
BERÇÁRIO Estimule que os pequenos explorem diferentes espaços através de diversos movimentos, como engatinhar, sentar, manipular objetos, arrastar-se, rolar (circuito de obstáculos: túneis, passar por baixo de..., pneus etc.). A partir da conquista da marcha, as crianças podem aprender a correr, saltar, pular, subir e descer com maior autonomia.                                                  MINIGRUPO Propicie a exploração dos desafios oferecidos pelo espaço por meio da coordenação entre movimentos simultâneos. Ofereça, também, orientação corporal com relação às noções de frente, trás, em cima, embaixo, dentro e fora.

4.Exploração do ambiente

Para que as crianças possam aprender e agir sobre o ambiente em que estão inseridas, os cinco sentidos são mobilizados. Desde muito pequenos, os bebês são curiosos e observadores e a creche é o lugar para transformar esta curiosidade em conhecimento - sobre os animais, as plantas, os lugares, a tecnologia e o comportamento humano.
Neste eixo, os pequenos desenvolvem as habilidades para compreender o mundo físico e o social, atribuir explicações para os fenômenos da natureza e da sociedade em que vivem. Começam levando praticamente todos os objetos à boca e, aos poucos, tornam-se capazes de interpretar, de modo bastante particular, fenômenos complexos, como a diferença entre o dia e a noite.
Para tanto, estimule a observação, a construção de problemas de investigação e faça com que as crianças criem, no dia a dia, hipóteses a serem desvendadas. Na pré-escola, os pequenos devem saber como observar fenômenos constantes e esporádicos, distinguir luz e sombra, quente e frio, liso e áspero, escolher critérios de classificação dos objetos, completar modelos e reconhecer materiais diferentes. Brincadeiras, experiências e jogos que envolvam estes conhecimentos são atividades fundamentais.
Orientações para este eixo
BERÇÁRIO Proponha brincadeiras com água, areia, terra e pasta de maisena para a exploração de texturas e propriedades dos materiais, como a temperatura e a consistência. Faça com que as crianças reconheçam sons altos e baixos, propicie as explorações de cheiros com alimentos e objetos e apresente situações que ilustrem reações de causa e efeito, por meio de brincadeiras e interações.
MINIGRUPO Deixe que os pequenos atuem sobre objetos e materiais sob sua orientação. Estimule a criação de misturas; a observação de diferenças e semelhanças entre objetos; a elaboração de problemas simples; a convivência com regras; assim como a comparação de características físicas de lugares, pessoas e animais.

5.Identidade e autonomia

A criança se reconhece como tal a partir do reconhecimento do outro. À medida que são atendidos em suas necessidades básicas, os bebês identificam as pessoas que cuidam deles e aprendem a localizar-se no ambiente. Reconhecem que são distintos do restante do mundo ao levar os próprios pés e mãos à boca, antes dos seis meses. Em seguida, passam pelo reconhecimento da própria imagem no espelho, uma passagem fundamental para diferenciar o "eu" do outro.
Nas experiências de cuidado na creche, as crianças aprendem a vestir-se, pentear-se, alimentar-se e fazer sua higiene. Além disso, aprendem a sentir-se bem com esses hábitos. O professor - que é o principal parceiro da criança nas ações de autocuidado e precisa estar ciente do conteúdo simbólico de cada um desses hábitos - deve propiciar atividades contínuas de estímulo à autonomia, pois é com essas experiências que a criança entende as capacidades e inabilidades humanas e compreende as diferenças entre as pessoas como elementos de legitimidade. Com isso, os pequenos constroem sua forma de perceber e reagir às mais diversas situações, de acordo com possíveis regras de sociabilidade.
Na creche, a criança precisa aprender a lidar com a própria segurança. Espera-se que ao final da pré-escola os pequenos tenham hábitos regulares de higiene pessoal, controlem os esfíncteres - abandonando as fraldas por volta dos 2 anos - e auxiliem o adulto a vesti-la. Entre 2 e 3 anos, que expressem suas preferências, alimentem-se com talheres, não coloquem a mão suja na boca, não manuseiem objetos pontiagudos e busquem o próprio conforto. Por isso, a alimentação, a limpeza e organização dos espaços da escola, o conforto dos ambientes, as aprendizagens coletivas e as brincadeiras com água são pontos importantes, que precisam ser amplamente planejados pelos educadores.
Orientações para este eixo
BERÇÁRIO e MINIGRUPO Organize jogos interativos com adultos e crianças; faça com que os pequenos se familiarizem com a própria imagem corporal; estimule a comunicação com diferentes parceiros; ensine a apropriação de regras de convívio social e de hábitos de autocuidado; dialogue para ajudar as crianças a solucionar dúvidas e conflitos e para que reconheçam e respeitem as características físicas e culturais dos colegas.

6.Exploração e linguagem plástica

As crianças pequenas observam e atuam no mundo com curiosidade, sem obedecer a padrões previamente estabelecidos. O contato com as linguagens plásticas desde bebês estimula a capacidade de explorar formas, cores, gestos e sons. Para agir de forma produtiva nesse eixo, é fundamental valorizar a atitude investigativa dos pequenos. Uma creche com ambiente favorável e professores conscientes de que o processo dos pequenos é mais importante do que os produtos resultantes deste processo tende a formar crianças mais abertas a desafio expressivos e, portanto, às artes.
A creche deve propiciar muitos momentos de pesquisa, experimentação e variedade de materiais e suportes - que devem ser apresentados à crianças antes da realização de cada atividade. O trabalho frequente com melecas, giz, tintas feitas à base de pigmentos naturais, em cartazes, nas paredes da creche ou em folhas de papel é essencial.
Orientações para este eixo
BERÇÁRIO Propicie o acesso a diferentes manifestações do campo visual - desenho, pintura, fotografia e estimule o reconhecimento e a exploração das primeiras marcas gráficas.
MINIGRUPO Nessa fase a criança forma um repertório de imagens de referência. Por isso, proponha diversas experimentações artísticas co melecas, tintas e misturas, valorize as garatujas e faça com que os pequenos reconheçam os próprios desenhos e explorem as relações de espacialidade.

7.Linguagem musical e expressão corporal

Por volta dos vinte dias de idade os bebês são capazes de reconhecer a voz materna. Antes disso, no entanto, já estão imersos no mundo sonoro e conseguem distinguir a voz humana de outros ruídos. O primeiro contato com a música, nas cantigas e brincadeiras maternas, é essencial para que a criança crie vínculos - fenômeno que tende a ampliar-se no berçário, quando o bebê conhece uma profusão de sons e o professor abre um novo canal comunicativo. As músicas ligadas a gestos e a brincadeiras tornam-se fontes inesgotáveis de exploração. Com alguns meses de vida, a criança passa a chacoalhar, bater e interagir com objetos diversos, em busca de novos sons.
Para que os pequenos desenvolvam percepções de timbre, duração, altura ou intensidade sonora - mesmo que não saibam nomear essas características na creche - o professor deve cantar muito, tanto para o bebê, quanto nas atividades em grupo, além de estimular os pequenos a ouvir música, independentemente da idade. O professor tem a responsabilidade de ampliar o repertório das crianças, apresentando canções regionais e folclóricas. Assim que possível, deve organizar momentos para que as crianças acompanhem o canto utilizando instrumentos, batendo palmas ou coreografando gestos, sem exigir o ritmo exato. Desde cedo, os pequenos são capazes de reconhecer suas canções favoritas pelo movimento corporal. Jogos musicais, canções, parlendas e trava-línguas são boas atividades cotidianas.
Orientações para este eixo
BERÇÁRIO Valorize os momentos de percepção e de reação aos sons ambientes, o reconhecimento de vozes familiares e de músicas favoritas pelo movimento corporal, a produção de sons ao bater, sacudir ou chacoalhar objetos, assim como a utilização do corpo e da própria voz.
MINIGRUPO Proponha desafios de canto - individuais ou em grupo -; jogos e brincadeiras musicais. Relacione a música com a expressão corporal e a dança e ensine às crianças como identificar silêncios, pausas, sons da natureza, da cultura e passagens sonoras. Estimule-os, também, a escolher suas canções favoritas.

Quer saber mais?
Proposta Curricular para Berçários - Educação Infantil. Prefeitura Municipal de São José dos Campos, 2009.
Orientações Curriculares e Expectativas de Aprendizagens para a Educação Infantil Paulistana. Secretaria Municipal de Educação de São Paulo, 2007.
Metas de aprendizagem - Educação Básica. Secretaria Municipal de Educação, Cultura e Esportes da Prefeitura Municipal de Junidaí, 2003


domingo, 24 de abril de 2016

Beatriz Ferraz fala sobre cuidados e conteúdos na creche

"Unir cuidados e conteúdos é oferecer ao mesmo tempo afeto e Educação desde os primeiros anos de vida", diz a professora e pesquisadora Beatriz Ferraz.

Cristiane Marangon (novaescola@fvc.org.br)
Foto: Daniel Aratangy
BEATRIZ FERRAZ | "Os bebês começam a descobrir o mundo por cheiros, gostos, formas, texturas e sons - e só depois organizam essas informações"Foto: Daniel Aratangy
Beatriz Ferraz já foi dona de escola de Educação Infantil e criou o centro de estudos Escola de Educadores, em São Paulo. Há cinco anos, trabalha com o Projeto Didática, Informação, Cultura e Arte, de formação continuada, em São Caetano do Sul, na Grande São Paulo (nos últimos três, atuando como coordenadora). Em sua tese de doutorado, estuda o conhecimento profissional de educadoras de creche com o objetivo de compreender o que aconteceu quando o foco mudou do bem-estar para a Educação. "Ao pensar em cuidados de cunho pedagógico, muitos deixaram para trás o colo e o afeto, quesão essenciais à constituição saudável do bebê", diz. Nesta entrevista, Beatriz fala sobre essa polarização e o perfil ideal do profissional para esse segmento.

Como funcionam as creches hoje?
BEATRIZ FERRAZ Há dois modelos mais comuns. Um com foco nos cuidados (o bem-estar físico e as questões biológicas) e outro que usa a pré-escola como referência (foco nos conteúdos curriculares). E ambos têm problemas. No primeiro, a creche se organiza em torno das refeições e da higiene. A troca de fralda não é feita de acordo com a necessidade. Ela tem hora marcada. Como sempre, há muitos bebês e crianças pequenas sendo trocados e ninguém dá conta de todos ao mesmo tempo. Alguns ficam esperando, sem nada para fazer. Já o segundo exagera na escolarização. Professores não propõem atividades de Matemática para que os pequenos explorem materiais relacionados ao assunto, mas para aprender a contar. Na hora do banho, muitos querem ensinar sobre as partes do corpo, quando o correto é estimular os pequenos a participar desses momentos com mais autonomia, fazê-los entender a importância da higiene e ajudar com pequenas ações, como lavar as mãos e levantar os braços.

Qual o modelo mais indicado, então?
BEATRIZ O ideal é encontrar o meio-termo entre os cuidados e a escolarização. Há muitos benefícios no primeiro modelo porque os professores são sensíveis ao carinho, ao acolhimento e ao vínculo, fundamentais nessa época da vida. No segundo, o bacana é entender que as crianças são competentes, ativas e produtoras de cultura. Mesclar isso é a chave.

Os pais entendem essas diferenças?
BEATRIZ Sim. E sofrem com a polarização. A referência que eles têm é a da escola regular. Mas, quando encontram essa escolarização na creche, sentem falta do colo, do afeto, da emoção. Ao mesmo tempo, muitas famílias acham que as crianças, desde cedo, devem ter cadernos e atividades de linguagem. É papel do profissional de Educação Infantil explicar essa dupla função da escola para os pequenos.

Quais são os ingredientes de uma boa proposta pedagógica?
BEATRIZ É fundamental inteirar-se sobre a concepção de bebê e criança pequena. Existe um discurso mais difundido sobre a pré-escola: os meninos e as meninas são ativos, construtores de cultura, fazem escolhas e tomam decisões. Para a creche, é essencial definir os grandes marcos do desenvolvimento: sentar, engatinhar, andar, falar, desfraldar etc. Da mesma forma, a boa proposta pedagógica deve contemplar que esses sujeitos tenham possibilidades de interação (e não sejam tratados como passivos, completamente dependentes dos adultos, sem outra necessidade além das básicas). Estudar o que os teóricos deixaram é outro ponto. O que Jean Piaget (1896-1980) queria dizer com o período sensório-motor? E Lev Vygotsky (1896-1934), ao afirmar que o bebê é um sujeito social? Nenhum deles disse que os pequenos precisam aprender a contar ou a segurar o lápis. Por isso, acredito que uma proposta pedagógica para a creche deve ter espaço para a formação de valores, a constituição da criança como sujeito, as relações sociais e as questões de vínculo, segurança e afeto. Todos devemos estar conscientes de que os bebês conhecem o mundo em todas as suas facetas: cheiros, gostos, formas, texturas, sons - e só depois vão organizar esse conhecimento.

Como os bem pequenos aprendem na Educação Infantil?
BEATRIZ Sempre de forma ativa. Na relação com as pessoas, os objetos, o ambiente, outros bebês ou crianças mais velhas. É preciso valorizar a exploração e a manipulação, investindo em materiais que possibilitem isso, como os brinquedos. Um cubo áspero de um lado e escorregadio de outro permite que o bebê entenda essas diferenças. Os pequenos também aprendem fazendo escolhas. O francês Gilles Brougère diz que o bebê já sabe se deseja ou não brincar. Quando não quer, chora. Quando quer, estica a mão, mexe a perna, dá um grito. É importante respeitar esse interesse. Além disso, é fundamental entender que não é o professor que ensina a criança a explorar e escolher. Isso acontece naturalmente. Seu papel é propiciar oportunidades. Daí a importância do ambiente para garantir a interação com segurança e conforto.

Como deve ser o espaço da creche?
BEATRIZ Ele deve ter diferentes objetos motivadores, como brinquedos e outros materiais que ofereçam diversas experiências. Não é preciso ter seis bonecas na sala porque há seis crianças. Existe essa idéia de que elas têm dificuldade de dividir. Na verdade, elas vêem o objeto do outro e querem brincar junto para interagir.

Quais são as qualificações pessoais mais importantes para trabalhar em creche?
BEATRIZ Gostar das crianças é essencial, mas não basta. A pessoa tem de estar preparada para cuidar e educar. Precisa saber lidar com imprevistos, se relacionar bem com outras pessoas e ter ética. Não é admissível tirar a mamadeira da boca de um bebê, colocá-lo no berço e se despedir só porque está na hora de ir embora.

Como deveria ser a formação inicial?
BEATRIZ Para começar, a expressão cuidado deve ser entendida como cuidar e educar. Também é importante saber trocar fralda, dar banho, segurar no colo e ter noções de primeiros socorros. É essencial entender como se dá o desenvolvimento humano dentro de situações coletivas, como a escola, e ser formado para refletir sobre a própria prática.
Quer saber mais?
CONTATOS Beatriz Ferraz
Escola de Educadores, R. Brás Mendes, 70, casa 3, 05443-070, São Paulo, SP, tel. (11) 3853-6562 

Reunião com familiares na creche

Plano de Trabalho

Objetivos
- Aproximar os familiares das atividades das crianças na escola.
- Favorecer o intercâmbio de informações sobre as crianças.

Faixa etária
Até 3 anos.

Tempo estimado
Duas horas, no máximo bimestralmente.

Material necessário
Máquina fotográfica, filmadora, TV e DVD, cartolinas, lista de presença, papel e caneta.

Desenvolvimento
1ª etapa
Defina o tema da reunião com a coordenação. Divulgue com antecedência e prepare a pauta. Perto da data, aproveite a entrada e a saída para relembrar os familiares sobre o evento. Se não conseguir encontrá-los, envie bilhetes. Faça um cartaz com o dia, a hora e a pauta da reunião e afixe-o na porta da sala ou da escola. Escolha uma música de um CD que é ouvido pelas crianças na creche para tocar na recepção aos pais ou um dos livros preferidos do grupo para ler para todos. Deixe a lista de presença à vista. Selecione as fotos que vai mostrar e as coloque num cartaz ou mural. Legende-as, descrevendo as atividades e o que foi desenvolvido por meio delas. Se optar, por exemplo, por uma foto das crianças brincando com água, pode escrever "brincar com água possibilita construir conhecimentos sobre um elemento que adquire a forma do recipiente que o contém". Cuide para que todas as crianças apareçam nas imagens. Assim, ninguém se sentirá desvalorizado. Outra possibilidade é fazer um vídeo da rotina na creche. Comunique o calendário de eventos de forma breve. Questões administrativas não devem tomar muito tempo.

2ª etapa
Durante a reunião, seja claro e evite chavões. Uma postura acolhedora e de escuta aos pais favorece a aproximação. Siga a pauta planejada e não deixe que eles se estendam nos comentários sobre os filhos. Peça que o coordenador tire fotografias do encontro para mostrar às crianças. Ao fim, coloque-se à disposição para conversas individuais. É possível propor uma avaliação oral ou escrita do encontro.

3ª etapa
Faça um resumo da reunião com base em suas observações e nos depoimentos dos pais presentes. Coloque alguns desses comentários num mural na escola e envie um resumo do que foi discutido para os ausentes. Compartilhe com a equipe os resultados da reunião.

Avaliação
Com base no material coletado na reunião, analise desdobramentos dela e levante temas que notou ser significativos para os familiares. Eles podem render outras atividades, por exemplo, uma palestra com especialista. Observe se as dificuldades específicas dos responsáveis identificadas na reunião podem ser atendidas em encontros temáticos - por exemplo: mães de crianças de 3 anos ou mais que não conseguem desmamar os filhos ou tirar a chupeta. A participação dos pais pode ser avaliada pelas questões e pelos comentários que fizeram na reunião.
Consultoria Cisele Ortiz
Formadora do Instituto Avisá La, em São Paulo.