Falta de
terrenos e alto custo de manutenção dificulta a missão dos municípios de
ampliar a oferta de vagas para crianças de 0 a 3 anos
Cristiane
Marangon
Há 22 anos as crianças brasileiras têm
direito a creche e pré-escola. A Constituição Federal de 1988 (artigo 208, item
IV) já dizia que é um dever do Estado a garantia de vagas na educação infantil
para as crianças de até 5 anos. A Lei de Diretrizes e Bases da Educação
Nacional (LDB nº 9.394), em 1996, no artigo 4º, que trata do direito à educação
e do dever de educar, reafirma a relevância desse direito, cuja importância já
era conhecida antes de sua consagração em lei e na Constituição Federal.
Na prática, porém, o que se constata é o
atraso na consolidação e na implementação desse direito como política pública.
As dificuldades são inúmeras. Faltam vagas para os pequenos, terrenos para a
construção de escolas e recursos para atendimentos de qualidade e profissionais
capacitados. No ano 2000, o governo federal, com o Plano Nacional de Educação,
lançou o desafio de ofertar creche para 50% da população de até 3 anos e
pré-escola para 80% da de 4 e 5 anos, até 2011. Os números atuais revelam que a
meta estabelecida para a pré-escola foi alcançada, mas a cobertura para os
menores beira apenas os 18%.
Para minimizar o problema, foi criado em
2007 o programa Pro Infância, que financia a construção, a reforma e a
aquisição de mobiliário e equipamentos para essa etapa da Educação Básica.
"Temos 1.722 escolas de educação infantis já financiadas",
contabiliza a Secretária de Educação Básica do Ministério da Educação
(SEB/MEC), Maria do Pilar Lacerda. Vale destacar que o município beneficiado
deve garantir a manutenção do programa, que, em geral, tem custo tão elevado
quanto a construção. "Se o valor empregado for de R$ 1 milhão, por
exemplo, é necessária a mesma quantia por ano para manter o padrão de
qualidade", sinaliza Luiz Araújo, consultor em educação da União Nacional
dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime). Ou seja, a grande responsabilidade
sobre a implementação dessa política pública está nas mãos dos municípios.
Alguns são vitoriosos na questão, outros não. Enquanto isso, crianças ficam
desassistidas, privadas de atendimento escolar adequado para a idade e da
companhia de pares da mesma faixa etária.
Financiamento
curto
Apontado por especialistas e também por
secretários de educação, o financiamento é o grande vilão da não expansão da
rede de creches. "Não é possível garantir o acesso de milhões de
brasileiros à escolarização sem elevar os gastos públicos em educação",
explica Araújo. "O ente federado que pode contribuir para que o país
alcance esse patamar seja a União, que fica com 58% de todo o dinheiro arrecadado
via cobrança de impostos."
A dificuldade encontrada em Camaragibe
(PE), município do Grande Recife, é a falta de financiamento para a construção
de creches e ampliação de salas. A cobertura do município no que se refere à
creche é de 8,46% e à pré-escola, 19,8%, segundo cruzamento de dados de 2007,
fornecidos pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep).
"A ampliação é urgente, pois precisamos extinguir a demanda
existente", diz a diretora de ensino Sinmônia Ribeiro de Arruda. Mesmo com
essas dificuldades, a secretaria de educação tem realizado diversas ações, como
a construção de uma creche, que atenderá, aproximadamente, 120 crianças em
tempo integral.
A prefeitura também está em fase de
escrituração de um terreno e da compra de outro em um dos bairros mais
populosos da cidade, onde serão construídas mais duas unidades.
Em São José do Vale do Rio Preto (RJ), a
110 km da capital fluminense, a situação não difere muito. Atualmente, o
município atende 46 crianças em idade de creche e 519 de pré-escola, o que
corresponde a 15,22% do número de matrículas da rede de ensino. "Atendemos
toda a demanda de pré-escola, mas para a creche ainda estamos nos estruturando,
pois precisamos de verba para ampliar espaços físicos em algumas unidades,
construir escolas para atendimento e contratar mão de obra qualificada",
conta o secretário de Educação local, Adilson Gonçalves Priori.
Perguntas sem respostas
Nem todos os municípios conseguem
justificar seus baixos índices e nem dizer, ainda que modestamente, quais ações
estão sendo planejadas para reverter o quadro. A cidade de São Paulo, que
possui a segunda maior arrecadação do Brasil, perdendo apenas para o Estado de
São Paulo, tem apenas 18% de cobertura em creche e 35% em pré-escola. Segundo a
assessoria da secretaria local, a demanda é decrescente de 2008 para cá e a
meta é atender todas as crianças cadastradas até 2012. Mas a falta de vagas em
São Paulo não é responsabilidade única e exclusiva de uma gestão. "Há um
esforço de atendimento nos últimos cinco anos, mas isso ainda é insuficiente
para atender à demanda, que representa 78 mil vagas para creche e 45 mil para
pré-escola", conta Samantha Neves, do Grupo de Trabalho Educação, do
Movimento Nosso São Paulo.
Ainda se agrega à questão o fato de 70%
das matrículas serem de escolas conveniadas, o que é um problema por dois
motivos. Primeiro porque essas escolas têm recebido o equivalente à metade da
verba que recebem as creches diretas. "Diante da situação, elas têm de
suprir com outras fontes e, quando não conseguem, não garantem atendimento com
as mesmas condições", explica Samantha. O outro ponto de atenção é o texto
da Conferência Nacional de Educação (Conae), que caso aprovado pelo Plano
Nacional de Educação irá congelar os convênios até 2014 e extingui-los até
2018.
Para demonstrar onde o dinheiro da pasta da secretaria municipal de educação paulistana está sendo gasto, o Movimento Nosso São Paulo fez uma relação dos custos do programa Leve Leite com a construção e manutenção de novas unidades de creche na cidade. O programa foi criado para combater a desnutrição da população atendida pela rede municipal de ensino e diminuir o índice de evasão escolar. Ele consiste em distribuir mensalmente latas de leite em pó para crianças e adolescentes com base na frequência escolar. Com o que se gasta com esse trabalho, valor que gira em torno R$ 130 milhões, financiados pela secretaria, seria possível construir 250 creches e atender 30 mil crianças por cinco anos.
Para demonstrar onde o dinheiro da pasta da secretaria municipal de educação paulistana está sendo gasto, o Movimento Nosso São Paulo fez uma relação dos custos do programa Leve Leite com a construção e manutenção de novas unidades de creche na cidade. O programa foi criado para combater a desnutrição da população atendida pela rede municipal de ensino e diminuir o índice de evasão escolar. Ele consiste em distribuir mensalmente latas de leite em pó para crianças e adolescentes com base na frequência escolar. Com o que se gasta com esse trabalho, valor que gira em torno R$ 130 milhões, financiados pela secretaria, seria possível construir 250 creches e atender 30 mil crianças por cinco anos.
Exemplos para todos
Na capital tocantinense o número é
bastante animador. A cobertura é de 37% para creches e 87% para pré-escola. Há
pouco tempo, em 2004, o número de creches era inferior a 4%. "Criamos uma
diretoria para educação infantil para adquirir um olhar mais focado",
explica o secretário de Educação Danilo de Melo Souza."Também construímos
novas escolas porque não tínhamos prédios adequados." Havia apenas cinco
escolas.
Esforço concentrado
Esforço concentrado
Foi feita uma análise do custo em uma
unidade com poucas matrículas e a conclusão foi que davam prejuízo.
"Prefiro colocar 300 crianças em um único prédio a dividi-las em três
diferentes", justifica Souza. "Se tenho três escolas, preciso de três
diretores, três lactaristas, três vezes o equipamento necessário, as
contas...". O secretário faz uma ressalva: "com os professores, o
custo é o mesmo, pois não dá para sobrecarregá-los e nem diminuir os
salários". Além disso, cada escola passou a administrar os próprios
recursos. "Quando a gente dá autonomia de administração, o controle do
dinheiro é maior", diz Souza. Atualmente, a rede possui 19 escolas. Uma
está sendo ampliada, outra construída e há uma terceira em licitação. Até 2012,
estão previstas mais 13 unidades. Todas as transformações foram feitas em
discussão com a sociedade. Exemplo disso é que uma comunidade de um bairro de
elite, durante um processo de orçamento participativo, solicitou a construção
de uma Cemei para atender os filhos das empregas domésticas. "Agora, os
moradores querem colocar seus filhos lá", conta. "Esse é um forte
indício de que as escolas que construímos são adequadas para atender crianças
de qualquer classe social."
Em Florianópolis, capital catarinense, a
situação também é animadora. As projeções utilizadas com base no censo de 2000
do IBGE indicam que a cobertura é de 38% para as crianças em idade de creche e
70% para a de pré-escola. Mesmo assim, é necessário expandir a rede, mas o
município enfrenta dois entraves: limitação territorial e falta de
financiamento. "É difícil encontrar terrenos de 3 mil m², principalmente
porque temos muitos mangues, morros e áreas de preservação permanente",
explica o secretário de Educação Rodolfo Joaquim Pinto da Luz. "Quando
encontramos, são caros. Para atender com qualidade, precisamos de mais
incentivos, principalmente, do governo federal", diz.
Revista
Escola Pública
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